Vai soar meio piegas, mas o não há outra forma de expressar a nossa relação: é de amor e ódio! Não me lembro ao certo quando fomos apresentados... sei apenas que meu pai foi o responsável. Ele sempre espalhava suas folhas pela casa... na cozinha encontrávamos o caderno Cotidiano, no banheiro o de Esportes, na mesa da sala lá estava o caderno de Comportamento & Saúde. Política em cima do sofá. Até hoje é possível fazer aquele almoço ou bolo de ‘fubá especial’ seguindo os recortes de jornais que estão colados no caderno de receitas...Ecoava pela casa a pergunta inevitável de todos os dias: “Cadê o jornal de hoje? Quem foi que pegou?”. Dito em terceira pessoa - mesmo quando estávamos somente ele e eu em casa – pois como de conhecimento público, eu sou o bode expiatório oficial de qualquer coisa ‘errada’ ou fora do lugar. Seguido do comentário corriqueiro: “- Vocês não sabem ler o jornal sem bagunçar, não? Todos podem ler, basta deixar arrumado”.
Além das ‘disputas’ para ver quem conseguia lê-lo primeiro, em ordem, sem faltar nenhum caderno, ainda tinha a sujeira. Sou apaixonada pelo impresso, porém não posso deixar de admitir que odeio a tinta que ele ‘solta’. A frescura inata não me permite andar descalça porque desde que me entendo por gente, não admito ‘pés sujos’, literal e figurativamente falando. E, minhas mãos não poderiam ser diferentes... a folha rude e as letras empreguinadas nas palmas da mão, que ressecam ao fim da leitura! Ah, um terror!
Como toda grande paixão tem suas contrariedades: o amor e a repulsa andam lado a lado. O jornalismo impresso é a minha paixão, porque tenho o infindo desejo de não ‘perdê-lo’ ou deixá-lo jamais. Fazer jornal, para mim, é um oficio e não uma distração. O segredo, porém, consiste em ficar. Em insistir. Em agarrar-se a ele, em lutar com ele e contra ele, para melhor domá-lo e se apossar dele, dos seus mistérios, das suas compensações inefáveis e da alegria que essa realização proporciona.
Foi amor a primeira vista! E como todo amor, às vezes nos causa dúvida. Até pouco tempo não conseguia me imaginar fazendo outra coisa na vida. Ainda não consigo, no entanto, minha mente começa a ser povoada por outras alternativas. Outras formas de conquistar a tão sonhada independência financeira, mas não sei... não sei, realmente não sei...talvez o caminho seja agregar... um segundo trabalho, quem sabe?!
O que sei e posso afirmar com completa convicção é que atuar como repórter me proporciona um imenso prazer. Essa profissão oferece oportunidades de crescer como pessoa, pois a capacidade de superar os preconceitos é algo inevitável. Uma vez que para desenvolver um bom trabalho é preciso capacidade para aceitar o outro como outro - não diferente, mas distinto - capacidade de entender a delicadeza da raça humana.
Jornalismo, minha eterna relação de amor, paixão e incerteza! Mas nem tudo está perdido, pois "a dúvida é um dos nomes da inteligência", segundo o escritor argentino Jorge Luis Borges.
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